Um morto entre tantos
Por Hugo Torres| Janeiro 8, 2010 | 5 Comentários
O HÚMUS morreu. Acabou. Finou-se. Esticou o pernil. O pulmão direito colapsou há semanas, agora, mesmo há instantes, letras atrás, foi-se o segundo, o esquerdo, a máquina sem resposta da carne, a carne sem resposta para dar, tudo muito calmo, aqui já no pasa nada, amigo, pode seguir. O coração fez-se pedra num instante, não contrai nem dilata, amuou. Não foi de tanto bater, que bateu tanto como os outros, normal: nasceu, fez amigos, deu-se ao pó que nos entra todos os dias em casa pelas frinchas, tudo muito sereno, nostalgia só a espaços, passa o cartão de débito, boa tarde, obrigado, e é correr para o metro, meu deus, tanta gente, próxima paragem a manta quentinha, a alegria toda nisso, ao que a gente chegou.
Esta terra secou, está dito. As cimeiras falharam, o corpo secou, a terra, é o que se quer dizer. Tanta azáfama, tanto vai que não vai que acabou por ir pelo ralo — quem diria, até a barriga desinchou, afinal a morte é como os iogurtes, ajudam a tirar peso aos dias, sobretudo quando estamos sentados. O HÚMUS nasceu em Março de 2008 e andou rosadinho no primeiro ano de vida. Ao segundo, que não chegou a completar, adoeceu e empalideceu. Acontece. Durante este último bloco de meses foi preterido por um total de cinco trocas de emprego, cinco mudanças de casa e duas migrações — a primeira de três centenas de quilómetros e a segunda para o outro lado do planeta. É obra. Quando olhámos para trás, já não havia nada a fazer. Levámos flores para a convalescença e aguardámos que, tranquilamente, perecesse. Já está. Guarde-se dele a memória que aprouver.
Explodiu
Por Hélder Beja| Novembro 11, 2009 | 1 Comentário
A bomba-relógio. Ao menos deste lado. Encerro, da minha parte, mais um capítulo na blogosfera - o primeiro feito a dois. O meu camarada de letras por aqui, o Hugo, já sabe da decisão. Devolvo o Húmus à terra e ao livro do Raul Brandão. Provavelmente para abrir outro cantinho virtual, um destes dias. Logo se verá. Vou-me com três palavras: foi bonito.
Abraços.
Bomba relógio
Por Hugo Torres| Outubro 29, 2009 | Sem Comentários
Bomba relógio, de Cristina Branco, realizado por Rui de Brito
«Estou tão contente»
Por Hugo Torres| Outubro 23, 2009 | Sem Comentários

Ontem fez-se História no Campo Pequeno: José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e Sérgio Godinho estiveram «enfim juntos» em palco, com o espectáculo Três Cantos. Fez-se História sobretudo por essa coisa tão simples que é juntar os amigos e cantar, mais do que pela novidade dos arranjos e de caminhadas por este rio acima.
O público — como disse a Catarina, no final — queria muito aplaudir estes três rapazes de cabelos brancos. Mais do que ouvir-lhes as canções renovadas, o público queria aplaudi-los. E fê-lo tanto, tantas vezes: como dizer obrigado com as mãos?, um agradecimento tão grande que leve dentro tudo o que carregamos no peito, e daí para cima, e daí para baixo, e etc.
«Estou tão contente», abriu José Mário Branco a conversa — e logo toda a gente se pôs enternecida, feliz com ele. E ele completou assim a inauguração daquele espaço de encontro que são aqueles versos cheios: «Hoje, está aqui sintetizado o que somos e dizemos há 40 anos, cada um à sua maneira. Contem com isto de nós, para cantar e para o resto». Tudo pequenas coisas que vão andar por muito tempo à boleia da memória.
O IOL Música trouxe um vídeo. Vejam.
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Nota mínima sobre Saramago e etc.
Por Hugo Torres| Outubro 21, 2009 | Sem Comentários
Manuel Jorge Marmelo escreve que, apesar de simpatizar «com o espírito blasfemo das declarações de José Saramago na apresentação do romance Caim», gostaria que o escritor «utilizasse o prestígio que dá ser Nobel e se dedicasse a combater crenças e religiões que, igualmente assentes em “maus costumes”, “invenções” e “disparates”, ainda produzem danos efectivos, que proíbem, coarctam a liberdade individual, ameaçam e matam». Leio isto no Google Reader e abaixo do título está «1 pessoa gostou disto». Percebo que se goste. Mas digo que cada um carrega a sua cruz. Outros Nobel terão essas preocupações. A de Saramago é, desde há muito, a ICAR. E até é eficaz. Disparar para todos os lados não me parece solução.
De resto, noto que apenas esta posta de MJM me puxa para a conversa em volta de Saramago, nas páginas que correm. Tudo o resto é uma idiotice.
Sinais dos tempos — Dos plágios
Por Hugo Torres| Outubro 21, 2009 | Sem Comentários
Houve alguém no homónimo brasileiro do RASCUNHO, «jornal de literatura», que olhou para meio parágrafo que publicámos deste lado do Atlântico e, meditando entre o CTRL+C e o CTRL+V, sentiu-se capaz de apurar o estilo. Em causa, o seguinte, retirado da crítica a Movimentos no Escuro, de José Miguel Silva (Relógio d’Água, 2005), assinada por Hugo Pinto Santos em 2007:
José Miguel Silva tem habituado mal os seus leitores. Tem-lhes dado doses insuspeitas e moderadas da mais tensa secura: a devastação, os diversos lamaçais instituídos, a tão vazia pequena maldade, os tectos falsos que nos cobrem, os golpes do amor, a mais verdadeira promessa, a da vida. A sua poesia será tudo menos um melífluo convite à evasão.
Ora, se HPS tivesse alguma ideia de como manusear a língua, teria saído exactamente como os camaradas do Rascunho brasileiro o reescreveram mais tarde:
José Miguel Silva tem habituado mal os seus leitores. José Miguel Silva tem dado a eles doses cavalares da mais tensa secura. Doses maciças de devastação e sofrimento. Contra os diversos lamaçais instituídos, contra a tão simplória maldade miúda do cotidiano, contra os golpes devastadores do amor, contra a mais verdadeira e a mais falsa promessa, a da vida. “A sua poesia é tudo menos um melífluo convite à evasão” (Teolinda Gersão).
Assim é que um texto tem categoria. Não fosse o escrito, uma pretensa biografia do poeta José Miguel Silva, estar por assinar, sem rosto e sem e defesa, convidaria eu HPS a deixar o RASCUNHO para abrir portas, braços abertos para o mundo, ao autor dessas linhas, convidando-o a connosco fixar mais da sua fértil imaginação de rato, teclado e Google. Como as coisas se apresentam, dificultadas pelo anonimato, ficamos com quem já estamos, paciência. O que nos vale é conseguirmos escrever uma frase da Teolinda Gersão à revelia da Teolinda Gersão. Essa competência ninguém nos tira. No entanto, nem umas aspas somos capazes de desenhar à volta para dar outra pinta ao dito e bem identificá-lo. A perfeição é uma meta.
Com este texto de além-mar, o próprio José Miguel Silva ficou a saber de pormenores da sua biografia que desconhecia por completo. Escreve o poeta no seu blogue, Achaques e Remoques:
Não, nunca vivi em Lisboa, não é verdade (infelizmente) que viaje muito, e só por confusão com os seus próprios gostos é que o jornalista poderá ter dito que eu “aprecio Rubem Fonseca, Gullar, Sebastião Nunes”, que nunca li e que para mim tanto podem ser escritores como futebolistas do fluminense. Lamento ainda que ele me dê como bebedor de cerveja, que além de não coincidir com a verdade pouco contribui para me prestigiar o gosto (custava muito, cara, ter-me inventado uma inclinação para o conhaque, ou para o Campari?), mas dou graças a Deus por não me ter pintado de laçarote à B. Bastos, piercing na pálpebra esquerda, Mallarmé tatuado no antebraço e cachimbo idêntico ao que, supostamente, comporá a pose do dito efabulador. Menos-mal.
Enfim, talvez isto seja uma tentativa descarada de pressão levada a cabo pelo poeta, em benefício da próxima recensão que venha de Curitiba. Pode ser. A sua carreira pode passar por aí. Até porque — note-se — o Rascunho, do Brasil, é «nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo e pelas polêmicas que fomenta entre escritores, críticos literários e consumidores de literatura, o jornal é distribuído para todo o Brasil, alcançando aproximadamente 12 mil leitores». (Os negritos são de responsabilidade anónima, que não pretendo tolher o juízo a ninguém.)
Etiquetas: Hugo Pinto Santos > José Miguel Silva
«É uma agonia, senhores, toda a gente a ver, e gritam, Ai que não é capaz»
Por Hugo Torres| Outubro 20, 2009 | Sem Comentários
Emenda-te, se ainda vais a temp0, jura que já tiveste vinte pontadas, crucifica-te, estende o braço para a sangria, abre as veias e diz, Este é o meu sangue, bebei, esta é a minha carne, comei, esta é a minha vida, tomai-a, com a bênção da igreja, a continência à bandeira, o desfile das tropas, a entrega das credenciais, o diploma da universidade, façam-se em mim as vossas vontades, assim na terra como nos céus.
SARAMAGO, José (1980), Levantado do Chão. Lisboa: Caminho.
O fraseado em queda — ou diário em imagens
Por Hugo Torres| Outubro 19, 2009 | 1 Comentário
Maria Bethânia e Paulinho da Viola, em Saravah (1969), de Pierre Barouh, ontem, no DocLisboa.
Nota breve sobre jornalismo (II)
Por Hugo Torres| Outubro 10, 2009 | Sem Comentários
keep looking »É história antiga. Ainda não tiveste tempo de ver, mas os jornalistas são parentes directos de comadres de soalheiro. Andam aos abraços, e isso significa pouco. Descompõem-se, e isso não significa muito. É uma raça especial, cruzada, às vezes híbrida. É um bicho da terra e bicho da água, um anfíbio.
SARAMAGO, José (1979), A Noite. Lisboa: Caminho.
