Húmus

Hugo Torres e Hélder Beja às voltas com a Cultura

«Queremos aveia todos os dias, água fresca todos os dias»

Hugo Torres | Agosto 21, 2008 |

Como previa, houve passageiros clandestinos na lista de livros para férias, que aqui cataloguei, antes de seguir para a praia. Encontrei-os na Feira do Livro da Vila da Marmeleira, organizada por Teresa Calçada, Coordenadora do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, entre 14 e 17 de Agosto. Procurando pechinchas, encontrei Shalom, de Possidónio Cachapa (ed. Assírio & Alvim, 2001), e Histórias para meninos sem juízo, de Jacques Prévert (ed. Teorema, 1998), num custo total de quatro euros. Ao primeiro, não lhe apreciei o moralismo, dispenso-o bem; o segundo, traduzido por Pedro Tamen e com ilustrações de Elsa Henriquez, é fabuloso. Riquíssimos contos alegóricos, com edição original na Gallimard, em 1963. Numa altura em que os micro-contos vão ganhando leitores, deixo, de seguida, o preferido pessoal deste volume de Prévert — O dromedário descontente:

Era uma vez um jovem dromedário que não estava nada contente.
Na véspera, dissera ele aos amigos: “Amanhã vou sair com o meu pai e com a minha mãe, vamos ouvir uma conferência, ora vejam!”
Os outros tinham dito: “Olha, olha, ele vai ouvir uma conferência, que maravilha”.

Não pregara olho toda a noite, tal era a sua impaciência.
E agora não estava contente porque a conferência não era nada do que imaginara: não tinha música e era uma decepção, estava aborrecidíssimo e com vontade de chorar.
Havia uma hora e três quartos que um senhor gordo falava. Diante do senhor gordo havia um jarro de água e um copo de dentes sem escova. De tempos a tempos, o senhor deitava água no copo mas nunca lavava os dentes e, visivelmente irritado, falava de outra coisa, isto é, dos dromedários e dos camelos.

O jovem dromedário estava cheio de calor e, além disso, a bossa incomodava-o muito porque roçava nas costas da cadeira. Estava muito mal sentado, mexia-se e remexia-se.
Então, a mãe dizia-lhe: “Está quieto, deixa falar o senhor”, e dava-lhe beliscões na bossa. O jovem dromedário tinha cada vez mais vontade de chorar, de se ir embora…
De cinco em cinco minutos o conferencista repetia: “Sobretudo, há que não confundir os dromedários com os camelos. Chamo a vossa atenção, minha senhoras, meus senhores e caros dromedários, para este facto: o camelo tem duas bossas, mas o dromedário só tem uma!”
Todas as pessoas na sala diziam: “Ah, ah, muito interessante”, e os camelos, os dromedários, os homens, as mulheres e as crianças tomavam notas nos seus canhenhos.
Depois tornava o conferencista: “O que distingue os dois animais é que o dromedário tem só uma bossa, ao passo que, coisa estranha e que é útil conhecer, o camelo tem duas…”

Por fim, o jovem dromedário fartou-se e, saltando para o estrado, mordeu o conferencista.
“Camelo!”, disse o conferencista furioso.
E toda a gente na sala gritava: “Camelo, porco de camelo, porco de camelo!”
E, no entanto, era um dromedário, e todo limpinho.

PRÉVERT, Jacques (1998), Histórias para meninos sem juízo. Lisboa: Teorema.

Comments

4 Responses to “«Queremos aveia todos os dias, água fresca todos os dias»”

  1. Carolina Lapa
    Agosto 22nd, 2008 @ 10:23 am

    ahahaha! Eu quero ler. O Boris Vian deu-me cabo do gosto literário. :)

  2. ana
    Agosto 22nd, 2008 @ 9:16 pm

    Um dos livros que se perdeu nos empréstimos…Uma delícia, não é? (O que tinha era em francês)

  3. ana
    Agosto 22nd, 2008 @ 9:20 pm

    Carolina: espero que o seu comentário seja irónico

  4. Coisas de uma «história desse outro Verão» « - ART’E MANHAS -
    Agosto 26th, 2008 @ 2:30 am

    [...] também fui à mesmo feirinha que ele e trouxe de lá este sonho; e a propósito de um grande presente de desaniversário a receber [...]

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