Húmus

Hugo Torres e Hélder Beja às voltas com a Cultura

Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?

Hugo Torres | Setembro 13, 2008 |

São raras as vezes em que a opinião de Luís Miguel Queirós e a minha coincidem — de onde resulta a permanente desconfiança com que leio as suas peças no Ípsilon. Mas o certo é isto: sempre que o tempo permite, a vontade lá está e leio-o. Esta semana (ontem), LMQ pergunta — logo na capa — se «Há uma geração de poetas portugueses do século XXI». E, ao longo de quatro páginas de texto, tenta responder-se. Isto e aquilo, este e aquele, lá para trás foi assim e assado, etc., etc., e acabou. Muito bem; estou satisfeito. Claro que haveria este ângulo diferente de manobrar o bicho; este, este e aquele que não foram citados (trabalho que Henrique Fialho tomou a braços). Mas essa seria uma discussão inócua — ou demasiado extensa para aqui. Daí que não me choque não saber «se estamos perante uma reportagem ou um artigo de opinião», como acontece a Luís Filipe Cristóvão.

ipsilon-12_setembro.jpgO que me desilude em LMQ é o tom paternalista — e pedante — com que saca este tipo de frases: «Editado há alguns meses por uma chancela de indiscutível prestígio, o mais recente livro de um poeta francamente importante da geração de 60, cujo nome nos abstemos de adiantar (até para poupar o embaraço aos meios culturais do país), vendeu 200 exemplares.» Porque se esquece que não está apenas a escrever para essa nata, que são os «meios culturais do país», mas para uma vasta gama de leitores. Para mim, por exemplo. Quem é o tal do poeta? Eu gostaria de saber. É trivial? Pode ser. Mas quero saber. Não se deixa o leitor às cegas. Fala-se de Armando Silva Carvalho? Permite-me o LMG que conjecture desta forma desabrida? E quem for além da simples dedução que fiz eu, de que seria autor publicado pela Assírio? E quem não faz a mais pequena ideia de quem é Armando Silva Carvalho — não seria mais produtivo nomeá-lo, chamá-lo à atenção dos leitores?

Depois, desilude-me isto: peguei na pergunta de LMQ e lancei-a no Google. Nada. Além da adenda de Henrique Fialho — que o próprio LMQ comenta — e da reacção de Luís Filipe Cristóvão (mais duas citações, de Diogo Vaz Pinto e no Sulscrito, ambos visados no artigo), nada. E esta falta de movimento e de vitalidade é, também ela, uma resposta. Não que os poetas devessem todos andar em grande actividade blogueira. Mas as baixas vendas de poesia indicam a falta de leitores, de alguém que reaja a essa poesia, de alguém que a discuta, que a defenda e que a ataque. E é o que se vê — e não acredito na tese que diz que os leitores de poesia não mexem online; estamos cá. Acresce o afastamento das artes das páginas dos jornais, o que faz com que este tipo de artigos, como o de LMQ, apareça com um carácter fixador que não possui, nem deve aspirar a tal. Deveria antes fazer parte de um acto contínuo do pensamento crítico associado ao mediático. O contrário, a lógica dos suplementos semanais e mensais associados de alguma forma ao manuseamento da actualidade — de onde quer que esta venha —, é claramente insuficiente.

Por fim, também eu faço uma correcção à peça, acrescentando à lista de livrarias especializadas a Poetria, no Porto.

Comments

5 Responses to “Há uma geração de poetas portugueses do século XXI?”

  1. manuel a. domingos
    Setembro 13th, 2008 @ 11:44 pm

    sulscrito. sulscrito!

  2. Hugo Torres
    Setembro 13th, 2008 @ 11:50 pm

    Ora, que imbecilidade! Um acto falhado. Obrigado pela correcção, manuel.

  3. l.
    Setembro 16th, 2008 @ 8:46 am

    realmente “eles andam aí”, eles navegam na net

    mas sempre cada um para seu lado

    e o pedantismo não se limita a um crítico. perpassa entre os poetas, os editores, etc etc etc

    infelizmente parece-me que o umbiguismo reina. muitos procuram a aprovação deste ou daquele crítico mais “em alta”

    procuram provar uns aos outros que eles é que estão na crista da onda e são mais inovadores. procuram títulos.

    quase numa lógica de cada um por si, salve-se quem puder, porque “a massa é pouca” - lógicas darwinescas aplicadas ao poder de marketing de cada um mais que ao que se encontra entre duas capas

    por isso é que se corre o risco de, daqui a uns 20 ou 30 anos (e nunca agora, agora isso é impossível) se chegar à conclusão de que nao ha uma geração seculo 21 na poesia portuguesa.

    mesmo existindo, claramente, bons poetas e mais que isso, poetas a procurar caminhos diferentes.

  4. Antónia Ruivo
    Abril 16th, 2009 @ 11:21 am

    Venho um bocado atrasada,só quero deixar uma achega, podem ter certeza que eles os poetas andam por aí,falta leitores, duvido, também andam por aí, falta sim um país que invista na cultura que por aqui se faz.quando um poeta tem que pagar a edição de um livro, quando se distribuem milhares em estádios e coisas do género, algo vai muito mal, afinal os poetas são a voz deste povo, sempre foi assim e são uma das classes mais mal tratadas, também sempre foi assim, abraços

  5. Gonçalo Fernandes
    Abril 18th, 2009 @ 5:19 pm

    há uma geração de poetas portugueses do século XXI mas é uma merda e, a que há, do século XXI não passa
    a poesia portuguesa presente dá vontade de ir dormir e sonhar - ou com outra, ou com outra coisa

    Gonçalo Fernandes

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