Húmus

Hugo Torres e Hélder Beja às voltas com a Cultura

«O amor não é cego, nem surdo, tem só momentos de desalento»

Hugo Torres | Outubro 29, 2008 |

Dizíamos tantas palavras. O meu mundo também não era grande coisa. Mas quem era aquela garota nos meus braços? O Holocausto para ela era um filme do Spielberg, Angola era a feição símia de Savimbi, e meninos piratas da perna-de-pau, coitadinhos de minas; a Tchetchénia era invenção celerada da Soviética, algures nos arredores de Chernobyl. E New York, New York, era a paródia residencial de Woody Allen e das suas enteadas de olhos em bico. Era isso o mundo dela, desertos e catástrofes, cetáceos ameaçados e Timor que era amor; um globo aldeão onde ela queria ver as tartarugas desovarem em paz, os tigres de dente de sabre voltarem a tosquiar os cordeiros da Sibéria, Sadam Hussein e o Papa Woytila dançarem como Zorba, em Jerusalém; um mundo cachorrinho de leite, onde a pior desgraça era ter sido deposta com um sorriso aos pés da escada e de onde havíamos de partir numa nave para Andrómeda e dar novos mundos ao mundo.

Mas esta rapariga não sabia de nada, e um namorado não sente assim, mas esta rapariga não vira nunca ninguém. Miranda! Era isso que lhe importava: estar no foco de luz dos olhos da ribalta, a rapariga afogada em si, primeiro o rosto, depois as mãos, enfim os cabelos. Brecht-Weil que eu ouvia debaixo da chuva de cinzas de Hannah, debaixo da lua vagabunda di espaço.

VELHO DA COSTA, Maria (2001), Irene ou o Contrato Social. Lisboa: Dom Quixote.

Comments

One Response to “«O amor não é cego, nem surdo, tem só momentos de desalento»”

  1. martinwang
    Junho 30th, 2010 @ 10:32 am

    Unha alma vella é a última cousa que esperar atopar dentro Justin Bieber. Pero basta escoitar unha vez aos 15 Fenómeno da música soul dos anos de idade para

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